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Ver o filme Nise - O Coração da Loucura foi o pontapé inicial do nosso trabalho, que tem como objetivo ponderar as novas formas de abordar as doenças. Nise - O Coração da Loucura Disponíveis para download. Gêneros. Filmes baseados na vida real, Filmes biográficos, Filmes brasileiros, Dramas brasileiros, . Baixar. Nise da Silveira ficou conhecida por seu trabalho como sobre a psiquiatra alagoana, assista ao filme Nise - O coração da Loucura.

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Sanitaristas brasileiros e americanos tratavam de estabelecer barreiras contra a penetrao do mosquito transmissor da febre amarela. Como o ato de dirigir é uma importante peça. Baillarger, reunies similhantes de canto e musica, onde se achavam reunidas mais de metade de alienadas dementes, que coziam, fiavam, ou teciam meias. A convivncia com Laura Brando e suas trs filhas era muito prxima. De repente ela me diz: - Fulana, que coisa engraada, voc tem um jeito de mdico nas mos Decreto n Ficamos muito mais dentro da história. E virava a cabea dos operrios. A velocidade da vida tangível reverbera online. Universidade de Hamburgo em , onde defendeu que as variaes psicolgicas manifestadas por indivduos pertencentes a diferentes grupos raciais seriam diretamente ligadas aos diferentes nveis de instruo e educao. Muitos psiclogos e terapeutas em geral aprenderam com ela conhecimentos sobre psicologia junguiana. Da Rua da Relao, havia os agentes de polcia, os tiras, como eram chamados, que contavam seus depoimentos a um senhor chamado Tenente Amrico, no sei se era Tenente, acho que no era, e ele distribua vai pra ali, pra acol e tal e me perguntou, porque nem me fecharam, no fizeram nada, me perguntou: a senhora quer tomar um caf? A ns nos aturvamos bem Silveira, O nvel de sucesso da iniciativa belga at hoje reconhecido no mundo como uma das mais positivas na abordagem psicossocial da esquizofrenia. Antnio Austragsilo que propunha tambm a luta contra as infeces danosas ao sistema nervoso, contra as intoxicaes provocadas pelo alcoolismo, o cocainismo, o morfinismo etc. A carta no chegou ao destino e voltou para as suas mos. E meu pai, jornalista e escritor no jornal de Alagoas, e o irmo dele, diretor.

Nise - O Coração da Loucura Disponíveis para download. Gêneros. Filmes baseados na vida real, Filmes biográficos, Filmes brasileiros, Dramas brasileiros, . Baixar. Nise da Silveira ficou conhecida por seu trabalho como sobre a psiquiatra alagoana, assista ao filme Nise - O coração da Loucura. Baixar Filme Nise - O Coração da Loucura Torrent Dublado, após sair da prisão, a doutora Nise da Silveira (Gloria Pires) propõe uma nova. PDF | A HISTÓRIA de vida de Nise da Silveira é considerada à luz do complexo campo simbólico que sua obra de maior Download full-text PDF. N . É o filme que aborda a instauração do Museu e tematiza a sua signi-. A mostra Nise da Silveira - Vida e Obra é uma homenagem do Centro Cultural do I am woman helen reddy games: Nise da silveira filme Você também pode baixar Nise Da Silveira Filme Completo filmes inteiros DVDRip Blu-ray. Nise Da.

Nosso filme mostra a ruptura de Nise com a psiquiatria convencional e o começo de um novo trabalho que impactou o estudo da mente no mundo inteiro. Que pudessem se divertir, se interessar e viver o processo. Explique esse processo partindo da pesquisa até a filmagem. Os atores leram toda essa pesquisa, e foram conhecendo mais através de pesquisas no Museu de Imagens do Inconsciente.

Luiz Carlos Mello deu aulas para os atores que interpretaram os clientes sobre cada um dos personagens reais. Além disso, eles tiveram contato com todas as obras originais. Cada um deles foi preparado fisicamente de uma forma específica. Era como se os autores daquelas obras voltassem para revisitar suas próprias obras. Essa vivência foi fundamental. Por que escolheu fazer assim? Diante da importância de Nise e de sua história, era fundamental que o filme fosse real e verdadeiro.

Nise pede por isso. A cena em si tinha que ser real o suficiente. Por isso a importância de termos filmado dentro do hospital, onde tudo aconteceu. Ele nos levou de volta àquele tempo. Eles puderam ter seu tempo para entrar naquela história, o que é raro no cinema. E tentamos filmar em ordem cronológica, para que isso contribuísse no desenvolvimento dos personagens. Isso foi muito legal, porque os atores puderam viver cada curva de seus personagens e nós fomos vivenciando a história.

Ficamos muito mais dentro da história. Durante as filmagens do Nise, eu tinha certeza que estava diante de um assunto muito importante e que eu tinha a responsabilidade de contar isso de maneira honesta, simples e direta. Acho que conseguimos isso.

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Poderia falar um pouco sobre o seu processo criativo para viver Nise no cinema? Qual é a importância da arte no trabalho da Nise? Por que você acha que as pessoas devem ver esse filme? Como foi feita a escolha do elenco? Nise da Silveira, uma mulher do sculo XX, escreveu na maturidade livros em que fez reflexo sobre seu trabalho, deu diversas entrevistas, realizou dezenas de exposies em que desvendou principalmente relaes tericas do seu trabalho.

Colecionou livros e formou uma grande biblioteca especializada. Embora tenha publicado vrias obras, a sua metodologia de anlise no suficientemente transparente nos textos, tornando difcil transformar seu saber em prtica no tempo atual. Este estudo busca desvendar por meio de anlise minuciosa de seus textos e entrevistas a arte de ser terapeuta em sua concepo. O autor Richard Sennett , p. Uma das teses que Sennet levanta que a originalidade do mestre dificultaria a transmisso do conhecimento.

Podemos fazer diversas aproximaes da artesania do trabalho de Antonio Stradivari com Nise da Silveira; ambos passaram boa parte da sua vida cuidando de suas. O italiano conhecia cada canto da oficina e tinha um conhecimento tcito sobre cada fase da produo dos violinos. Nise da Silveira reunia em seu gabinete conhecimento de tudo que acontecia nas oficinas e supervisionava diversos detalhes para o funcionamento das mesmas.

O conhecimento reunido por Nise da Silveira aproxima-se de laboratrios cientficos dirigidos por gnios idiossincrticos que segundo Sennet , p. Eu passei boa parte do tempo da elaborao desta tese procurando uma maneira de reconstruir a metodologia e a prtica que existia nas oficinas e atelis do Museu de Imagens do Inconsciente e do Setor de Teraputica Ocupacional geridas por ela.

Primeiro busquei entendimento terico estudando alguns livros que ela tinha em sua biblioteca. Passei a dar mais importncia a pistas encontradas nas entrevistas da prpria Nise e percebi a originalidade do trabalho que desenvolvi no mestrado, que trouxe tona o depoimento de um dos primeiros monitores, o artista Almir Mavignier. Distante h mais de cinquenta anos do fato e morando em outro pas, conseguiu contar detalhes que no condiziam com o conhecimento colocado nos livros por ela. Percebi o papel do artista como disparador de criatividade em pessoas com distrbios mentais e tambm do improvvel como fator constituinte da qualidade do trabalho.

Mavignier convidou o crtico de arte Mrio Pedrosa que mesmo com uma posio poltica dentro do marxismo contrria a de Nise da Silveira, passou a ser seu maior colaborador na empreitada de criao do Museu de Imagens do Inconsciente. Na verdade cada detalhe importante na criao de um trabalho de qualidade.

Na citao de Sennett , p. Trata-se da absoro do conhecimento tcito, no dito nem codificado em palavras, que ocorreu nesses locais e se transformou. Como Stradivari, Nise estava presente o tempo todo e aparecia inesperadamente em toda parte, reunindo e processando os milhares de elementos de informao que podiam no ter o mesmo significado nem para o mais empenhado dos assistentes ou monitores. Nise da Silveira cuidou principalmente de transmitir o saber entre muitos discpulos e admiradores que acompanharam sua prtica e seus grupos de estudos.

Muitos psiclogos e terapeutas em geral aprenderam com ela conhecimentos sobre psicologia junguiana. A teraputica de reabilitao com esquizofrnicos foi passada para seguidores da Casa das Palmeiras e para poucos terapeutas como Gladys Schincariol, Lizete Vaz, Walter Melo Junior. Entretanto os seus processos de leitura de imagens do inconsciente aparentemente foram transmitidos e desenvolvidos prioritariamente junto ao seu secretrio e mais prximo seguidor Luiz Carlos Mello.

A teraputica ocupacional estudada e aplicada por ela foi transmitida em seus cursos de formao de tcnicos de teraputica ocupacional. J estudos de filosofia, fenomenologia e outros foram divididos com o poeta Marco Lucchesi, Martha Pires.

Inmeros outros amigos, seguidores acompanharam seus estudos, seu ensinamentos. Diferentemente de Antonio Stradivari que aparentemente nunca se preocupou com a sade daqueles que trabalhavam com ele, Nise da Silveira sempre procurou readaptar as pessoas que trabalhavam com ela, encontrar uma funo que eles desempenhassem de forma mais prazerosa. Nise tambm investiu fortemente em dividir seus saberes e suas dvidas, publicou diversos artigos, livros, concedeu inmeras entrevistas e realizou diversos audivisuais.

Deixou como legado o Museu de Imagens do Inconsciente e sua biblioteca com os livros que utilizou para construir seus estudos e prticas.

A reconstruo do quebra-cabea da teraputica para pessoas com sofrimento mental talvez no se monte completamente, mas contribui para emergir mais claramente formas, linhas, cores de uma reabilitao inovadora que articulou arte, antropologia cultural, psicanlise, psiquiatria, geometria, afeto no ideal de propiciar uma maior potncia de vida para pessoas excludas da sociedade.

Nise da Silveira usada nesta tese so seus depoimentos, principalmente a entrevista concedida no ano para a pesquisadora e amiga Dulce Pandolfi7 Silveira, , na qual ela relata sua infncia, adolescncia e envolvimento poltico com o Partido Comunista. Em Macei, no centro da cidade. A rua Frechal de Cima8. Depois nos mudamos para outra rua. S mais tarde, quando eu tinha dez anos, me lembro bem porque teve uma festa em casa, num bairro chamado Bebedouro. Que ficava a vinte minutos do centro da cidade.

Na obra de Cludio, Nise ocupa um lugar altamente significativo. Dos sonetos em nmero de cem, dezesseis falam diretamente de Nise. A Nise apresentada uma mulher desejada e inatingvel. Lopes, ; Silveira, ; Melo Junior, O nome aparece em outros trs poemas de Cames e no trecho do canto segundo dos Lusadas, XX Cames, , p. Vrios autores falam que um anagrama de Ins que tem origem grega e no cristianismo designava castidade e pureza, sendo confundida com os nomes latinos Agnes ou Agnus.

A Nise greco-romana, com significado de cruel, tirana, insensvel, mais. As dvidas que tive sobre a biografia de Nise, consultei o trabalho de Luiz Carlos Mello que teve acesso prpria Nise da Silveira. Nise quando indagada sobre um nome para um livro autobiogrfico, respondeu: Uma Psiquiatra Libertria. Eu era filha nica, e posso dizer que filha de dois artistas. Minha me, uma pianista, que tangenciou a genialidade. E meu pai, jornalista e escritor no jornal de Alagoas, e o irmo dele, diretor.

O Jornal de Alagoas foi fundado para combater a ditadura dos Malta. Era uma espcie de ditadura, eu no sei bem, porque eu era muito menina nessa ocasio. O Luiz, que era o diretor e fundador do Jornal de Alagoas, vivia em luta com o partido dos Malta. Uma briga de tiro, de morrer gente, de pedra no jornal. Os primos maiores iam pra l pra brigar. Era briga de pedra e de bala. E os irmos eram to solidrios. Meu tio Luiz era uma pessoa dura, spera, no tinha nenhum desses toques que meu pai tinha.

Mas meu pai era solidrio com ele. Ele tinha horror, eu creio, que ele tinha horror arma, mas tinha que sair armado, com revlver. E eu me habituei a isso porque ele queria que eu me habituasse e dizia Nise apanha l em cima. Isso j estvamos na outra casa que tinha escada, apanha meu revlver e minha me dizia e se ela cair da escada com esse revlver?

Eu descia com o revlver na mo e ele punha, pois esperava-se sempre ataque, que o ministro foi atacado e foi bala pra todo lado. E pegou na carteira dele onde a filha, muito religiosa, tinha prendido com um alfinete uma medalha de Nossa Senhora das Graas, sem ele saber e a bala bateu na.

Havia meu pai que era mais moo, tinha amizades com os colegas de estudos dele, mas se esses colegas pertencessem a outro partido, ele no podia falar, no falava. No cumprimentava. Alagoas, os irmos Magalhes da Silveira, principalmente Luiz, dirigiam com o futuro governador Fernandes Lima um movimento de forte oposio oligarquia Malta, at a famosa derrubada que dividiu a populao em partidrios das duas faces.

Magalhes da Silveira tinha na msica a marcao do ambiente, dois pianos de cauda estavam dispostos na grande sala entrada da casa, agora na Rua Boavista no centro de Macei. Nise herdou da me a alma de artista. Maria Lydia era um esprito livre dedicado s artes e que no sabia preparar nem um caf. Havia um clima muito diferente do clima dos meus tios que eram os irmos do meu pai. Porque minha me era uma pessoa completamente livre de preconceitos.

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Ela ia ao concerto, encantava-se com um determinado artista, saa da platia e ia para coxia do teatro e fazia amizade com o artista e muitas vezes convidava o artista pra se hospedar l em casa. Meu pai tem 7 irmos homens e 3 mulheres que no moravam em Macei, ficavam no Recife e na Paraba. Quer ver uma coisa bem destoante do princpio do sculo? Em Macei no havia casa de chapus, as mulheres andavam de chapu nessa poca, e at muito tempo depois.

Ento apareciam mulheres que contratavam em casas comerciais e um espao e vendiam chapus. E apareceu uma moa que fazia a mesma coisa no Recife e ns.

Ento meu av, pai de minha me, morava no Recife.

Ns amos trs vezes, quatro vezes por ano a Recife. Minha me conheceu uma moa que fazia chapus em Recife. Depois ela veio pra Macei pra fazer a mesma coisa. Uma loja, casa comercial, que vendia tecidos, pra vender chapus. E minha me dizia essa moa no pode ficar no hotel aqui de Macei.

So hotis mais de caixeiros viajantes. E convidou pra ir l pra casa. Ela foi se hospedar l em casa. A crtica da famlia voc pode imaginar. Ela era polonesa, nesse tempo, estar com uma polaca em casa com uma filha menina. Mas era uma polaca de alta categoria porque trabalhou. Depois mandou buscar a me, os dois irmos na Polnia. Os dois irmos formaram-se em medicina foram meus amigos. Depois aqui no Rio fui algumas vezes na casa dela.

Mas na hora, um estouro isso, enfim, eu tinha no sei quantos anos, uns 6,7 anos, em Macei, princpio do sculo, era escndalo. Minha me convidava tava convidada, n? Ele aceitava a senhorita E bastava eu, com a mo no teclado, no piano de cauda, os olhos na msica, nos meus exerciciozinhos elementares, naturalmente eu estava comeando, dando o mximo de ateno. E minha me andando pela casa, em outra pea, morvamos numa casa muito ampla, dizia: olha l o f sustenido!

Foi o primeiro enigma que eu defrontei na minha vida. Como eu estava com a mo em cima do teclado, os olhos fixos na msica, errava e no sabia que tinha errado. E ela olhando de um lado para outro dizia: olha E eu no compreendia esse fenmeno. Ento, isso foi pra mim um problema muito grande, traumatizante. E, eu pendia pra outros lados, a outra parte eu decorava com uma facilidade muito grande. Os textos das msicas cantadas. Minha me convidava artistas, uns chegavam a se hospedar mesmo e cantavam e ensaiavam e eu decorava todas as letras.

Eu gostava muito de msica. E sabia a letra, como ainda hoje eu sei grandes trechos de peras, era o tempo da pera. De La Bohme e da Traviatta eu sei muitos trechos e eu recitava esses trechos. Com seis anos, eu sabia o ltimo ato da Traviatta, da Morte da Traviatta, de memria. Quando a protagonista morre tuberculosa e ela que era uma mulher bonita, se olha no espelho.

Ento, eu recitava isso, com uma tal dramaticidade. Ento ela dizia: Oh, meu mdico! Oh, meu doutor, como estou mudada! E com a tal doena, toda a esperana est morta. Ela cantava isso com agudos impossveis para uma pessoa que estava s portas da morte. Coisa que caracterizava as peras.

Eu recitava com uma tal dramaticidade, que uma artista que fazia a protagonista da Traviatta me deu um espelho de prata, que ela tinha ganho como uma grande artista lrica. Se eu no era para cantar, eu seria uma artista dramtica. A j aparecia a memria significante de Nise da Silveira que guardava sempre o mais importante das experincias vividas. Uma lembrana marcante da infncia foi o av materno: Meu av tambm recitava muito Castro Alves, foi um dos primeiros enigmas da minha infncia.

Estou vendo ele com uma toalha nos ombros, ele era funcionrio pblico. De manh, amanhecia o dia, tomava banho, tomava caf e ia-se embora. Mas o que guardei o que me cutucou muito a cabea, eu devia ser muito menina ainda, eram os versos de Castro Alves: Vai Colombo, abre a cortina de minha eterna oficina e tira a Amrica de l. Ento, era Deus falando com Colombo, mandando tirar. Eu achava isso uma coisa extraordinria, que oficina era essa que tinha a Amrica.

Tira a Amrica. O povo vivia todo recitando. Outra lembrana muito presente era o trem e a ferrovia que ia de Macei para o Recife. Seus avs e suas tias eram pernambucanos, assim como seu pai, ela adorava o Recife:. Eu adorava ir a Recife, sabia o nome de todas as estaes de Macei at Recife. Achava formidvel o chefe do trem. Dava aquele apito pro trem andar, com duas bandeiras na mo, uma verde e uma vermelha, era o mximo o chefe do trem.

Ficar na estao. Os trens eram de uma companhia inglesa, acabaram-se com essas coisas.

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A lembrana especial da sua infncia sua me com as mos paradas no piano, esperando a chegada do sabi:. A minha me sentada ao piano l de casa, esperando que chegasse o sabi. O sabi um pssaro curioso. O sabi um bomio, no vai para o ninho cedo. Ele canta durante a noite. Minha me com as mos no piano esperando que o sabi chegasse. Ela tentava aprender a melodia do sabi; e aprendeu. Ela tocava a melodia muito prxima realmente do canto do sabi. Os vizinhos at participavam da espera da chegada do sabi Mello, , p.

Recife percebemos reminiscncias que se aproximam com as madaleines de Proust e que podem ser explicadas pelo filsofo Henry Bergson como memria pura que guardam as lembranas:. Ficava fascinada com a habilidade deles. O cheiro de tinta de impresso me embriagava. Eu me metia ali e terminava sujando o vestido de tinta preta. Nesta pequena memria da menina Nise est contida uma grande parte do que Marco Lucchesi , p. Nesta lembrana, conta como ficou fascinada com a imagem dos trabalhadores da tipografia mexendo com os tipos mveis com as mos.

O trabalho com as mos j a encantava, a conscincia do trabalho manual muito importante para entendermos suas escolhas na vida. Do pai Faustino, relembra tambm um momento de envolvimento com a msica e sua incrvel capacidade de ensinar o quer que fosse: Meu pai, que era um fenmeno tambm, eu no sei, no sei entender, e era desentoado, como boa parte da famlia.

Admirava enormemente, conhecia msica. Eu me lembro que um dia, mandava-se buscar na Europa as msicas, no havia comrcio em Macei. Vieram msicas de Bach, e minha me imediatamente foi experimentar no piano, no conseguia.

Eu s posso tocar essa msica se tiver trs mos. Meu pai pegava o texto da msica e ensinava. Pegava tinta vermelha e tinta verde. Pintava a mo direita de uma cor e de verde a outra. Olha aqui as suas mos. E ela tocava. Tambm um fenmeno misterioso pra mim. Foram realmente pais extraordinrios que eu tive, nessa rea de msica, de arte, de poesia. Minha me musicou quase toda a poesia de Castro Alves. Atitudes essas que me pareciam absolutamente normais.

Porque eram as atitudes do meu pai e da minha me. Eu no fui essa quebradora constante de regras, porque essas regras nunca existiram na minha casa. Meu pai, um homem que lia muito matemtica e literatura. Ele tinha uma boa biblioteca. E eu li logo Machado de Assis muito cedo. O primeiro livro que eu li, estudando portugus, foi A cartomante Leal, , p.

E, correndo o mundo, seu livro maior - a tica - chegou s minhas mos numa pequena cidade do nordeste do Brasil, chamada Macei. Parece incrvel. Eu estava vivendo um perodo de muito sofrimento e contradies.

Logo s primeiras pginas, fui atingida.

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As dez mil coisas que me inquietavam dissiparam-se quase, enfraquecendo-se a importncia que eu lhes atribua. Outros valores impunham-se agora.

Continuei sofrendo, mas de uma maneira diferente. Mas para poder fazer o vestibular de medicina na faculdade da Bahia precisou fazer os exames do Liceu Alagoano porque era o estabelecimento oficial da cidade.

A aprovao no Liceu Alagoano era um documento obrigatrio, juntamente com os de concluso do ginsio. Revi-me quando ainda ginasiana. Depois de prestados meus exames de lgebra e geometria no Liceu Alagoano em Macei, logo no incio das frias, eu estava um dia arrumando meus livros: separei os volumes de lgebra, geometria e cadernos correspondentes, guardei-os num armrio prximo de minha pequena mesa de estudo, era linda essa pequena mesa com seus elegantes ps volteados, e coloquei sobre ela.

Meu pai estava perto, sentado numa cadeira de balano. Parecia totalmente absorvido na sua leitura. Foi com surpresa que o ouvi perguntar-me: Voc vai recolher seus livros de geometria? Lamento, porque geometria no matria como as outras.

No apenas o estudo das propriedades das figuras. Ensina a arte de pensar.

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Meu pai, em poucas palavras, mostrava-me uma perspectiva nova de estudo. Eu tinha na ocasio quatorze anos de idade, mas me feriu a expresso arte de pensar Silveira, a, p. Ela contava que sua casa era frequentada por artistas e estudantes, assim sem separao: Eu j convivia com estudantes que iam fazer o vestibular.

Como meu pai era professor de matemtica, no s ensinava nos colgios, era professor da escola normal, mas ensinava matemtica em colgios pra rapazes e muitos desses rapazes. E ele fazia grupos de estudos e eu participava desses grupos de estudos, de modo que eu no distinguia quem era homem ou mulher, eram estudantes. Faustino Magalhes da Silveira contribuiu para formao de muitos outros jovens. Demonstre-me este theorema a x b Eu obedecia s ordens delle, ia at a pedra.

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Ia, mas O meu crebro de collegial de 13 annos um tanto ou quanto dado vadiagem, no podia ser muito symphatico quellas contas, onde ao invs de algarismos, figuravam lettras. Faustino foi um homem feliz, por haver sido justamente a sua unignita a primeira mdica de Alagoas Vasconcelos, , p. Em janeiro de , acompanhada do pai, foi para Salvador, cidade que ela no conhecia, para fazer a prova de vestibular que era destinada para maiores de 16 anos.

Porque eu precisava para o vestibular ter 16 anos, e eu fiz o vestibular com 15, mas da a pouco eu fazia Eu fiz o vestibular em janeiro e em fevereiro logo eu completei. Entrei na legalidade, completei 16 anos. Faustino Magalhes da Teixeira conseguiu que as autoridades alagoanas emitissem um documento em que a data de nascimento de Nise da Silveira fosse 10 de janeiro de , assim ela tinha os 16 anos necessrios no dia do vestibular.

Existiam faculdades de medicina, direito:.

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Engenharia tambm, mas nenhum em Macei. No Recife houve primeiro uma faculdade de Medicina, mas no reconhecida. E meu pai chegou a me sugerir, desde que eu tinha resolvido estudar medicina, ir para essa faculdade. Eu digo, no vou fazer um esforo enorme para uma faculdade no reconhecida.

De repente acaba e o que me acontece? No acabou, resistiu. Ento, o caminho era ou direito, no Recife, eu no me sentia com vocao assim pra advogar, falar, pra coisa pblica. Pessoa mais introvertida. Ento, o caminho que eu tinha era medicina. Eu gostava de estudar histria natural, biologia, gostava.

A medicina apareceu como uma segunda opo arte: porque era um caminho, eu gostava de ter vindo, por exemplo, para um conservatrio de msica no Rio, mas no podia, com meu ouvido tapado, no podia.

Ento eu tinha dois caminhos: ou estudava medicina, ou estudava direito. Entrou tambm uma outra, que j era uma senhora obstetra que queria fazer o curso de medicina, mas deixou. Eu fiquei s no primeiro ano e no segundo, no terceiro uma moa que estava estudando na minha frente perdeu, que era do Cear, a ficou comigo fizemos juntas o terceiro, depois ela pediu transferncia aqui pro Rio. No quarto e sexto eu fiquei s.

Eu ia pra faculdade e me aguentava at a hora do almoo. Eu morava perto e saa correndo pra fazer xixi. Depois voltava de tarde e a mesma coisa. Minha tragdia era essa. Quando cheguei aqui no Rio e visitei a faculdade e vi toalete de senhoras, eu achei aquilo uma coisa paradisaca.

Torneiras fechadas.

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Estar diante daquele homem ilustre, professor famoso, citado no livro clssico de parasitologia de Brumpt, deixava-a em alvoroo contido. O professor era clebre pela dedicao pesquisa dos parasitas. Alm disso, corria a lenda de que ele, o sisudo cientista, cultivava orqudeas, possua um orquidrio, fato que lhe aumentava a aura de seduo.

Num dos primeiros dias de aula, o austero professor entrou no grande salo lotado por estudantes recm-admitidos na faculdade e disse, solene: Creio que tempo de criarmos um serpentrio aqui na faculdade. Estou certo de contar com a colaborao de vocs. Em seguida ao convite, o professor fez entrar na sala o bedel, que trazia nas mos um vidro com uma serpente dentro. O mestre pinou o rptil com cuidado e dirigiu-se jovem caloura, dizendo: - Segure-a.

No venenosa. Recuar seria fatal. O mestre e os cento e cinquenta e sete rapazes de certo esperavam o momento de soltar o riso diante do recuo da futura doutora. Essa certeza, tirada dos olhares que a cercavam, fez com que ela dominasse o asco e estirasse os dois braos, com as palmas das mos viradas para cima, receptiva.

Ela segurou a serpente com as duas mos durante um minuto, talvez, e, em seguida, numa angstia controlada, dirigiu-se ao colega do lado, dizendo com firmeza: sua vez. A carta no chegou ao destino e voltou para as suas mos. Decidiu continuar a faculdade. Cabia-me, e as meus colegas, o estudo das peas componentes das engrenagens da mquina que seria o corpo humano.

E, para tornar mais fcil essa tarefa, muitas vezes recorria-se vivisseco, ou seja, ao estudo dessa outra mquina mais simples, o corpo do animal, no flagrante vivo de seu funcionamento. Lembro-me, como se fosse hoje, de uma aula prtica de fisiologia que tinha por tema o mecanismo da circulao.

Uma r foi distendida e pregada pelos quatro membros, crucificada, sobre placa de cortia e o peito aberto cruamente para que vssemos seu pequeno corao palpitando. Os olhos da r estavam esbugalhados ao mximo e pareciam perguntar-nos: por que tanta ruindade? Para nada. Ningum aprendeu coisa alguma naquela estpida aula.

Fomos visitar a minha tia Amlia, era a tia mais velha, casada com o irmo mais velho do meu pai que mudava de uma casa para outra maior. Ela tinha 8 filhos. Ento era uma casa grande. A casa tinha uma sala na frente, s vezes duas janelas, uma maior, o corredor, e quartos nos lados. E a tia Amlia foi mostrando os quartos, e como distribuiria, porque ela tinha tambm muitos filhos, oito filhos.

Homens, mulheres, ento aqui fica Nise, Beatriz, aqui fica Laura. A a reao de minha me, o comentrio de minha me: Mas que corredor timo pra se dar uma boa carreira Minhas tias, senhoras respeitadas, obviamente ficaram chocadas.

E eu fiquei, eu reclamei dela: Como voc diz uma coisa dessas? Eu era muito mais assim formal, talvez, do que ela. Perguntada se fez amizades nesta poca, disse que no. Nas frias de junho e depois dos exames de novembro voltava para Macei; retornando para Salvador em maro. Logo que chegou a Salvador, sentiu falta do conforto da sua casa de Macei, mas logo se acostumou; sobre sua capacidade de adaptao ela conta: Sempre tive muita facilidade em me adaptar.

Eu sa daqui, fui pra Europa, s, no me senti estrangeira um s minuto. So seres humanos. Morava na mesma penso que seu primo Mrio Magalhes da Silveira, para quem o pai fez um pedido solene que cuidasse da prima enquanto estivesse na Bahia. Nise iniciou um namoro com o primo ainda na poca que faziam faculdade e foram companheiros durante mais de sessenta anos. Para o professor Valladares:. O doente estendido ali num leito de indigente do Hospital Santa Isabel no era uma mquina, ensinando uma semiologia minuciosa, na inteno de que compreendssemos a dinmica dos sintomas.

Dava-nos a viso do doente na sua totalidade de ser humano e no uma mquina, sobre a qual poderiam ser derramados [ A jovem mdica no participou dos festejos oficiais.

Ela foi, passou um ms comigo, alis no s no sexto ano, no quinto ano tambm ela foi, passou o ltimo perodo porque ela comia pouqussimo, ento comida de pensionato tinha muita dificuldade. Minha me no sabia fazer grandes coisas no. Tomava mingau de aveia e pronto, era uma rejeio. Eu almoava mais ou menos no pensionato, mas de noite eu achava to ruim a comida que mesmo no tinha apetite e no fim do ano minha me geralmente ia. Eu ficava muito tensa com exame.

At com essa bobagem de livro eu fiquei tensa. Nesta tese utilizou ideias da higiene mental e eugenia que estavam em voga na poca. Seu pai assistiu com muito orgulho a filha ser aprovada com nota mxima na faculdade de medicina da Bahia10, na famosa regio do Terreiro de Jesus na capital baiana. Nas suas palavras Silveira, , p. Mas o retorno foi. Eu voltei pra Macei e a foi a desgraa. Eu voltei, me formei dia 28 de dezembro, tomei o navio com minha me, dia 4 de janeiro, quando tinha, no porto de Macei, com minha me, cheguei em casa, naturalmente, tava alegre o clima, mas a meu pai adoeceu.

No dia 10 de fevereiro ele morreu, apenas eu me formei. Eu fazia o meu aniversrio, isso me chocou muito, me marcou at hoje. Meu aniversrio no mesmo dia do dele, ele faria 47 anos. Morreu 5 dias antes de completar 47 anos. A morte do pai foi marcante em sua vida e um tema sempre difcil de rememorar. A me vendeu os dois pianos de cauda que possuam para enviar a filha para a capital do pas. Pouco tempo depois passaram a habitar a casa de nmero 56 na mesma rua.

A casa ficava em frente casa do poeta Manuel Bandeira Bezerra, , p. O jovem casal alugava o primeiro quarto, com janelas que davam para a rua, abrindo-se para baa de Guanabara. O escritor argentino Ral Tun falou assim do casal Magalhes da Silveira: vivamos en la casona de matrimonio de inquietos mdicos jvenes, Nise y Mario Magalhes, frente a la casa del gran poeta Manuel Bandeira idem, p.

Em vrias entrevistas Nise deu a entender que veio sozinha para o Rio de Janeiro, omitindo a informao que veio em companhia do primo Mario Magalhes da Silveira. Figura 8 - Nise e Mrio , quando moravam na Rua do Curvelo, dcada de Acervo MII. Mello Foram eleitos pela legenda Bloco Operrio e Campons porque na poca o partido comunista estava na clandestinidade. Nunca houve um casal igual ao Octvio e a Laura. Nem que eu conhecesse, nem que eu tivesse lido.

Porque Octvio vivia preso, muito diferente do comportamento comunista atual. Era uma casa pobre, trs meninas, trs caminhas na sala e a mesa. Tudo na mesma pea, s tinha uma pea. Um quarto e uma cozinha, e um banheiro com pano que pendurava-se e Laura era uma pessoa de alta inteligncia.

Gostava das tranas que ela usava. Ela tinha uma alegria extraordinria. Esse perodo muito bonito. As trs meninas trabalhavam como pequenas artistas. Brincavam na rua, que tinha muito menos movimento. E ainda hoje. E agente de polcia incessantemente vigiando. Ento tinha um cdigo. Chegava um momento que ele tinha que fazer pipi, o agente de polcia.

Entrava num aougue, numa venda. Ento a menina j tinha um gesto combinado. E Octvio estava espreitando s frestas da janela. A saa. S o impossvel pegava, porque ele conhecia Santa Teresa. Aqueles morros so labirintos, tem muitos caminhos. E ele punha tambm o casaco de cor diferente de um lado para outro e trocava. No havia quem pegasse ele. S havia um lugar possvel pra pegar: a porta de fbrica. Coisa que no se usa mais.

A vida dele era porta de fbrica. Saa de casa e ia pra porta de fbrica. Hoje falam muito mal dele, no reconhecem ele, mas ele foi fantstico. Numa dedicao total. No meio de tudo isso estudando muito. Laura tinha sido professora e escritora e depois de casar-se com Otvio Brando em passou tambm a defender os ideais comunistas. A convivncia com Laura Brando e suas trs filhas era muito prxima. Num depoimento, Dionysa Brando , p. Minha me e Nise tornaram-se amigas. Uma tinha admirao pela outra. Nise estava sempre disposta e, quando havia necessidade, ficava com as trs filhas de Laura, e frequentemente dava banho em mim, a caula.

Tenho-o carregado em toda minha vida Brando, , p. Diziam que era Nossa Senhora, e era, assim, uma oradora. E falava meio prosa, meio poesia e virava a cabea dos operrios. Aquela mulher muito bonita. Nunca tinha havido isso. E virava a cabea dos operrios. E por isto ela foi deportada: por ser minha esposa e por causa do prprio trabalho. Esta triste passagem da histria do Brasil foi acompanhada por Nise da Silveira que foi uma das nicas pessoas que seguiu o casal at seu ltimo momento no Brasil em Estavam presentes quatro pessoas apenas no embarque dele.

Uma grande mulher morava tambm na Rua do Curvelo, Zila Teixeira, que no era do partido, mas era super, tinha o esprito comunista, esprito de solidariedade, e eu saa muito com Zila.

Estava eu, Zila, um rapaz, acho que era espanhol, ou aqui de um pas da Amrica Latina, no sei se Argentina, chamado Caberito, e o pai de Laura. Estvamos os quatro. Era um navio alemo, foram de 3 classe. E eu resolvi entrar no navio.

Entrei no navio, fui no camarote deles, muito modesto, e depois sa, no lembro. Tinha um aparato policial grande no embarque dele, enfim, no aconteceu nada comigo.

Entrei e sa com toda a naturalidade. A voltei para a minha casa em Santa Teresa, a j eles no estavam, no estavam mais, j tinham partido. Foi aprovada no concurso pblico e ficou aguardando tomar posse do seu cargo.

Nise nos conta quais eram suas obrigaes no partido na poca: As tarefas no eram grandes no. Eu participava de reunies, via gente doente do Partido, e lia aquelas apostilas estalinistas horrorosas, muito mal escritas, e muito ferrenhas. Segundo Otvio Brando, esta escolha poltica levou a uma perda do apoio das massas trabalhadoras e um enfraquecimento do partido no Brasil. O resultado foi a expulso do partido com a acusao de ser trotskista como saiu publicado no jornal do partido: trotskista com ligaes internacionais.

Em novembro do mesmo ano veio o levante comunista que ficou conhecido como Intentona Comunista; conta que ouviu os tiros do quarto que ocupava no Hospital Psiquitrico da Praia Vermelha.

Em janeiro de a reao de Getlio Vargas tinha se intensificado contra os comunistas e Nise foi presa e liberada no mesmo dia.

Ela morava em um pequeno quarto de frente para o Iate Clube, onde hoje o bairro da Urca. Assim descreve o local onde morava: achava adorvel esse meu quartozinho, na Avenida Pasteur de fronte para o mar. De fronte do Iate Clube. E ali eu tinha uma tranquilidade muito grande.

Um pouco depois eu continuava estudando, mas continuei estudando psiquiatria, mas estudava tambm socialismo. Eu tinha livros marxistas, e uma enfermeira viu, denunciou ao administrador e a eu fui presa.

Fui presa por denncia. Na noite de 26 de maro de A fui levada para a Polcia Central. Figura 10 - Ficha do registro da priso de Nise da Silveira em Foi um chefo, assistente do Felinto Mller que me prendeu. O diretor do hospital chamava-se Waldomiro Pires, mandou me chamar, eu deso e ele diz: Aqui est a doutora Nise, a esse policial. Foi um choque. Mas eu aguentei bem. A fui para a Rua da Relao, era por ali que a gente entrava. Depois ento, passei uns 6 dias na Rua da Relao e depois, fui, tudo isso noite, sempre noite, quando me prenderam, se eu no me engano, na vspera da priso do Pedro Ernesto.

Ento a polcia esperava a minha reao. E esvaziou a Rua da Relao. Eu fui de carro at com um rapaz diplomata. Fui para a Frei Caneca. Da Rua da Relao, havia os agentes de polcia, os tiras, como eram chamados, que contavam seus depoimentos a um senhor chamado Tenente Amrico, no sei se era Tenente, acho que no era, e ele distribua vai pra ali, pra acol e tal e me perguntou, porque nem me fecharam, no fizeram nada, me perguntou: a senhora quer tomar um caf?

Ele ento chamou um dos tiras, que eu considero um ser sobrenatural, e disse: Conduza a doutora, nunca me chamaram tanto de doutora, sala de mulheres. Havia outras mulheres, presas por motivos diferentes. Ento eu acompanhei esse tira. Quando chegamos no corredor, o ambiente horrvel, todo pintado de roxo e l no fundo eu vi uma luz meio embaada, e l era a sala das mulheres.

E esse tira ento para de repente no corredor. Ele parou, eu parei, no sabia pra onde ele ia me levar. E ele me disse: A senhora fez muito mal em no aceitar o caf que o Tenente Amrico lhe ofereceu, porque, ele estava por dentro das coisas, vai ser o presidente da repblica Getlio, vai decretar amanh o estado de guerra, ento nada mais vai valer nem habeas corpus nem nada.

Quem foi preso agora no sabe como sai. Eu fiquei espantadssima. Ento ele insistiu: Acho bom, a senhora no sabe quando vai tomar. Ele tinha sido designado pelo Tenente para me acompanhar chamada sala de mulheres na Rua da Relao. Eu o segui sem saber pra onde eu ia. Me disse: a senhora fez muito mal em no aceitar o caf, porque no sabe quando vai ter a oportunidade de tomar outro alimento, a situao t muito grave, o presidente vai decretar estado de guerra, ento, as leis no vigoram,.

Mas, ele me dizia isso com ar bondoso. Ele disse: Como? Aceita o caf? Eu a disse: Aceito. Ele disse: Eu no sei se o Tenente Amrico vai permitir, mas vou dizer que a senhora aceita.

Entrei numa sala lateral sem corredor, ele me deixou na tal sala, foi falar e disse: o Tenente Amrico permitiu. Eles no faziam alimento nenhum l na Rua da Relao. Elisa, na verdade chamava-se Elza Soborovisky, foi barbaramente torturada, como relatou a paraense Eneida Costa de Moraes , p.

Uma mulher to bela. Nunca a esquecerei. Havia louras, negras, mulatas, morenas, de cabelos escuros e claros, de roupas caras e trajes modestos. Datilgrafas, mdicas, domsticas, advogadas, mulheres intelectuais e operrias. Algumas ficavam sempre, outras passavam dias ou meses, partiam, algumas vezes voltavam, outras nunca mais vinham.

Havia as tristes, silenciosas, metidas dentro de si prprias; as vibrteis, sempre prontas ao riso, aproveitando todos os momentos para no se deixarem abater. Olga estava grvida e Nise relembra o que aconteceu na poca: Elas viajaram juntas, mas foram separadas, cada uma saiu de uma vez. A Olga com essa coisa de grvida, filho de Prestes, levantou um clamor muito grande entre os presos. Ela chegou contando essa histria E os desgraados escolheram um navio que fosse direto para Hamburgo, Alemanha.

Porque receavam que se tocasse o navio num porto francs, os operrios as arrancassem.

FILME NISE SILVEIRA BAIXAR DA

Ento estudaram a rota do navio. Mas a me do Prestes era uma mulher fantstica, fez um movimento na Frana enorme entre os intelectuais por causa da menina. Anita foi criada por uma tia, depois que a av morreu. Anita tornou-se uma estudiosa da histria do movimento comunista e fez uma tese sobre a coluna Prestes, em que utilizou uma longa entrevista concedida pelo pai Lus Carlos Prestes.

Mas como ela manteve sua sade mental na realidade da priso? Ningum nos visitava a no ser essa criatura nica no mundo, no h outra pessoa igual, a quem eu j me referi, que tirou o carto para me visitar, e me visitava toda semana Zila Teixeira todo dia de visita ela levava frutas, levava roupas para lavar e trazia roupas simples para andar l dentro. A jovem mdica tambm era amiga das filhas de Zila.

Ela uma das pessoas mais comunistas do mundo, tanto que quando ela morreu, ela pediu ao neto que no queria coroas nem negcios de enterro, fazia questo que no momento em que o caixo baixasse terra fosse tocada a Internacional, tocada numa vitrola pssima do menino que era estudante. Conheceu Laura Brando, Zila Teixeira, Elisa Berger, Olga Benrio; conviveu com a saga dessas mulheres, estando prxima, vendo os gestos de carinho de que elas eram capazes e ao mesmo tempo a dura defesa dos ideais de uma sociedade mais justa feitos por estas mulheres que de um jeito ou de outro marcaram o destino da jovem Nise.

O escritor alagoano Graciliano Ramos estava preso no Pavilho dos Primrios: Chamaram-me da porta: uma das mulheres recolhidas sala 4 desejava falar comigo. Quem seria? E onde ficava a sala 4? Um sujeito conduziu-me ao fim da plataforma, subiu o corrimo e da, com agilidade forte, galgou uma janela. Esteve alguns minutos conversando, gesticulando, pulou no cho e convidou-me a substitulo.

Trepar-me quelas alturas, com tamancos? Uso de guia para reconstruir o encontro entre Nise e Graciliano o texto de Walter Melo, Nise da Silveira: memria e fico na obra de Graciliano Ramos, publicado no nmero 19 da Revista Advir em setembro de , p. Examinei a distncia, receoso, descalcei-me, resolvi tentar a difcil acrobacia.

A desconhecida amiga exigia de mim um sacrifcio; a perna, estragada na operao, movia-se lenta e perra; se me desequilibrasse, iria esborrachar-me no pavimento inferior. No houve desastre. Numa passada larga, atingi o vo da janela; agarrei-me aos vares de ferro, olhei o exterior, zonzo, sem perceber direito porque me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no primeiro instante no atinei com a pessoa que falava. Enxerguei o ptio, o vestbulo, a escada j vista no dia anterior.

No patamar, abaixo de meu observatrio, uma cortina de lona ocultava a Praa Vermelha. Junto, direita, alm de uma grade larga, distingui afinal uma senhora plida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moo revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Macei, apresentou-se: Nise da Silveira. Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrnea fora do mundo, longe da profisso, do hospital, dos seus queridos loucos.

Sabia-a culta e boa, Rachel de Queirs me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tmida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espao. Nunca me havia aparecido criatura mais simptica. O marido, tambm mdico, era o meu velho conhecido Mrio Magalhes. Pedi notcias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento. De pijama, sem sapatos, seguro verga preta, achei-me ridculo e vazio; certamente causava impresso muito infeliz.

Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a perturbao, magnetizava-me. Balbuciou imprecises, guardou silncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me assim confuso Ramos, , p.

Apesar do encontro inslito e de lamentar ver Nise da Silveira presa e afastada do trabalho de mdica, a empatia entre os dois alagoanos foi imediata. Graciliano afirmou nunca me havia aparecido criatura mais simptica idem. Nise chegou enfermaria sofrendo de um desarranjo nervoso, consequencia provvel dos interrogatrios longos.

A timidez agravava-se, fugia-lhe s vezes a palavra e um desassossego verdadeiro transparecia no rosto plido, os grandes olhos moviam-se tristes idem, p. Graciliano chegou na enfermaria completamente arrasado, sentia-se mal, vivia com uma teimosa resistncia. Nise atesta a amizade que construiu com Graciliano neste duro momento da sua vida: num perodo que eu passei na enfermaria e Graciliano esteve tambm, quando veio da Ilha, a tive amizade mais estreita com ele. Ao saber disso Nise surpreendeu Graciliano dizendo que no achava nenhum carter em Raquel de Queiroz.

No perdoava a escritora Raquel por ter dito em um programa de rdio que Nise a acusava de ser trotskista. Este fato rememorava o episdiao da expulso do partido comunista e provocava fria na alagoana. Graciliano pegou gosto pelo jogo e sempre procurava um parceiro para passar o tempo com as cartas, com seu singular humor, ele escreveu em Memrias do Crcere: Nise deu-me as primeiras lies do jogo que iria desviar-me das letras nacionais Ramos, , p.

O diretor da priso, o tambm alagoano Major Nunes, permitiu que as prisioneiras Nise da Silveira e Eneida, juntamente com Heloisa, esposa de Graciliano, enfeitassem a cela com vasos de flores; foi preparado um almoo e Graciliano foi presenteado com uma garrafa de aguardente. Assim o livro Angstia teve seu lanamento extraoficial na priso.